Uma análise aprofundada, divulgada na quinta-feira (7), esmiuçou os elementos que culminaram na severa catástrofe climática que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024. A tragédia afetou 478 municípios, impactando a vida de mais de 2,4 milhões de pessoas, e deixou um saldo de 185 mortos e 23 desaparecidos até a presente data.
Dois anos após o desastre, os responsáveis pela pesquisa empreenderam um minucioso mapeamento, identificando os eventos desencadeadores, as condições de insegurança, as causas fundamentais e as pressões dinâmicas, configurando um diagnóstico completo da cadeia de produção de risco.
Além disso, o relatório apresenta diretrizes para a redução da exposição e da vulnerabilidade em áreas urbanas por todo o Brasil.
Intitulado Entendendo a Construção do Risco: causas raiz do desastre climático de 2024 no Rio Grande do Sul, o trabalho foi elaborado pelo World Resources Institute Brasil (WRI) em colaboração com acadêmicos de diversas universidades do estado.
“Buscamos entender as fragilidades que culminaram nesse desastre e propor uma discussão sobre as decisões e políticas que vão prevenir desastres futuros e promover um desenvolvimento resiliente”, explicou Henrique Evers, um dos pesquisadores que assinam o estudo.
Lara Caccia, coordenadora de Adaptação Urbana do WRI Brasil, salientou que a pesquisa dimensionou a magnitude da catástrofe, indicando que, embora um evento climático extremo tenha sido o disparador, o desastre decorreu de um processo histórico de formação de riscos, influenciado por aspectos sociais, econômicos e de governança.
“Esses fatores amplificaram os impactos das chuvas intensas”, detalhou Caccia.
O levantamento organizou as 11 causas raiz em quatro categorias distintas. Essas causas se interligam com 20 pressões dinâmicas, criando condições inseguras que, combinadas, intensificaram o risco e a vulnerabilidade.
Nesta categoria, o estudo apontou um modelo de ocupação territorial que demonstrava baixa resiliência frente aos eventos climáticos.
Aqui, foram identificados a variabilidade climática e as condições geomorfológicas e hidrológicas do terreno como elementos que contribuíram para a ocorrência do desastre.
Este grupo abrangeu o negacionismo climático, a acentuada desigualdade socioeconômica e a concentração de riqueza, além da ausência de uma cultura de prevenção entre a população.
Por fim, na governança, foram listados um modelo de desenvolvimento que prioriza a economia em detrimento das pautas ambientais e sociais, um arcabouço legal para gestão de riscos negligenciado, a falta de priorização política para a agenda socioambiental, a insuficiência da governança para tratar da questão climática em diferentes esferas de gestão, e a dualidade entre os setores público e privado.
Em termos práticos, uma causa fundamental como o modelo de ocupação territorial com pouca resiliência contribui para pressões dinâmicas, incluindo a expansão urbana sem controle, a especulação imobiliária e as desigualdades socioespaciais.
“Esses fatores, comuns a outros cenários de desastres climáticos, destacam, sobretudo, o papel das decisões humanas e institucionais em gerar e disseminar socialmente o risco ao longo do tempo”, ressaltou o relatório.
Os pesquisadores enfatizam que a presença generalizada desses riscos em todos os municípios atingidos sublinha a urgência de uma articulação e integração que transcenda as capacidades municipais, envolvendo, por exemplo, instâncias associadas às bacias hidrográficas.
Com base neste mapeamento detalhado, a equipe de pesquisa concluiu que a construção de cidades mais resilientes exige mais do que apenas investimentos em infraestrutura. É fundamental o fortalecimento da governança em todas as esferas governamentais, a articulação e integração do planejamento, a solidificação de uma cultura de prevenção e a atenção prioritária aos grupos mais vulneráveis.
“Se o risco foi construído historicamente, a resiliência também pode ser construída por meio de novas escolhas de desenvolvimento”, avaliou Lara Caccia.