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Série de indígenas suruí sobre identidade é selecionada pela TV Brasil

Documentário 'Gente de Verdade' retrata a luta do povo Suruí e recebe maior investimento público da história para TV

23/04/2026 às 00:06
Por: Redação

A série documental "Gente de Verdade", protagonizada por integrantes do povo Paiter Suruí e ambientada na Terra Indígena Sete de Setembro, localizada entre Rondônia e Mato Grosso, foi uma das obras contempladas pela chamada pública Seleção TV Brasil. O projeto acompanha o esforço da comunidade em preservar sua memória e identidade diante das transformações ocorridas após o primeiro contato do povo Suruí com não indígenas, pouco mais de 50 anos atrás.

 

A produção faz parte de um conjunto de projetos selecionados pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC) com recursos provenientes do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). No total, 39 produções foram aprovadas na chamada pública Seleção TV Brasil, divulgada em fevereiro, com um investimento global de 109.889.224,78 reais, representando o maior aporte já feito pelo Estado brasileiro para fomentar conteúdo audiovisual destinado à televisão pública.

 

O apoio faz parte do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), realizado em conjunto pelo Ministério da Cultura (MinC) e a Agência Nacional do Cinema (Ancine).

 

A série "Gente de Verdade" foi selecionada na linha temática Sociedade e Cultura, juntamente com outras sete produções. Os episódios retratam a rotina e a trajetória dos Paiter Suruí, que enfrentam impactos como a substituição de pajés por igrejas, abandono de rituais tradicionais e o esquecimento da língua originária Tupi Mondé entre as novas gerações. A narrativa acompanha quatro protagonistas de três faixas etárias distintas – Ubiratan, Agamenon, Celesty e Kennedy – que buscam manter viva a identidade Suruí apesar das influências da fé cristã, urbanização e novas tecnologias. Questões como ancestralidade, pertencimento e adaptação à modernidade são discutidas ao longo dos oito episódios de 26 minutos cada.

 

A direção da série é assinada por Ubiratan Suruí, cineasta pertencente ao povo retratado, enquanto o roteiro é de autoria de Natália Tupi, também cineasta e fotógrafa indígena. O formato da produção prioriza uma abordagem conduzida pelos próprios indígenas, o que garante autenticidade às narrativas e propicia um olhar interno sobre os desafios enfrentados pela comunidade. O enredo é impulsionado pela revelação de um arquivo fotográfico produzido por um fotógrafo alemão durante o contato inicial do povo Suruí com não indígenas, nos anos 1970. Essas imagens se tornam ponto de partida para um debate sobre o resgate da memória, espiritualidade e identidade, questionando se o uso dessas fotografias poderia desrespeitar crenças religiosas ou tradições que proíbem até a menção aos mortos.

 

Antonia Pellegrino, presidente da EBC, coordenou a Seleção TV Brasil durante sua passagem pelo cargo de diretora de Conteúdo e Programação. Ela ressaltou que a série tem potencial para conquistar outros editais, mas os realizadores decidiram inscrevê-la na chamada da TV Brasil, escolhendo o canal público como espaço de exibição.

 

“Esse gesto reforça a relevância da comunicação pública para dar visibilidade a vozes historicamente silenciadas. É um projeto potente que posiciona no centro histórias que por muito tempo foram invisibilizadas e que dá protagonismo a quem vive essas experiências. A série amplia o olhar sobre os povos indígenas com sensibilidade e profundidade, a partir da força do audiovisual em provocar reflexão e ampliar a compreensão sobre diferentes realidades”, comenta.

 

Indígenas lideram produção audiovisual

 

Além do enfoque no povo Suruí, "Gente de Verdade" tem como diferencial o protagonismo indígena em todas as etapas da produção. A direção de Ubiratan Suruí e o roteiro de Natália Tupi são exemplos desse compromisso em valorizar narrativas originadas da vivência direta nos territórios indígenas.

 

O diretor Ubiratan Suruí observa que a condução da série por indígenas é um dos principais pontos que distinguem a obra, possibilitando maior autonomia e autenticidade na representação dos temas.

 

“Gente de Verdade nasce do nosso próprio olhar. Por muito tempo, as histórias sobre os povos indígenas foram contadas por outros, de fora. Aqui, não. Somos nós que contamos. Quando a gente coloca nossas próprias narrativas no centro, a gente fortalece nossa autonomia, nossa identidade e mostra a diversidade que existe entre os nossos povos. São histórias reais, de agora, longe dos estereótipos. A gente se apresenta como realmente é: povos vivos, com voz, com pensamento, com futuro — não como personagens do passado.”, ressalta.

 

Ubiratan também destaca o papel da TV Brasil como canal público de alcance nacional, considerando fundamental a exibição da série nesse espaço para ampliar o diálogo, o respeito e o reconhecimento das histórias indígenas. Segundo ele, ocupar esse tipo de espaço significa romper com a invisibilidade e dar oportunidade para que as vozes dos povos originários sejam ouvidas por toda a sociedade brasileira.

 

Fotografias históricas viram exposição

 

Em São Paulo, o Instituto Moreira Salles (IMS) realizou no ano passado a mostra "Paiter Suruí, Gente de Verdade", composta por 800 imagens capturadas desde a década de 1970, quando as câmeras chegaram à Terra Indígena Sete de Setembro. A exposição oferece um mergulho na trajetória, tradições, relações afetivas, cotidiano e resistência do povo Paiter Suruí. O acervo fotográfico permanece disponível no site do IMS para consulta pública.

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