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Projeto investiga origem das tartarugas que vivem em Arraial do Cabo

Iniciativa monitora tartarugas em Arraial do Cabo, coleta DNA e busca mapear rotas, alimentação e impacto do turismo na espécie.

21/04/2026 às 16:16
Por: Redação

Em uma tarde marcada por mar calmo e céu aberto, mergulhadores utilizando caiaques acessaram as águas da Praia do Pontal, localizada na Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, estado do Rio de Janeiro. Aproximando-se a cerca de 200 metros da faixa de areia, um dos mergulhadores submergiu e, poucos minutos depois, retornou à embarcação trazendo uma tartaruga marinha. Logo após, outra tartaruga foi capturada de maneira semelhante.

 

Essas capturas, realizadas sob os olhares atentos de pescadores e banhistas curiosos, fazem parte de um sistema de monitoramento da saúde dos animais promovido por uma iniciativa científica. O procedimento integra as atividades do Projeto Costão Rochoso, conduzido pela Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento, organização não governamental dedicada à conservação. A proposta do projeto é reunir evidências científicas para subsidiar a preservação e a recuperação dos costões rochosos, que constituem a zona de transição entre o mar e o continente.

 

O projeto, desenvolvido em parceria com a Petrobras, enfrenta o desafio de identificar a procedência das tartarugas que habitam a região de Arraial do Cabo, área reconhecida por apresentar a maior concentração de tartarugas-verdes em zonas de alimentação no litoral brasileiro.

 

Segundo a bióloga Juliana Fonseca, uma das fundadoras do projeto, todas as cinco espécies de tartarugas marinhas presentes no Brasil já foram registradas em Arraial do Cabo.

 

Monitoramento com exames e coleta de amostras

Após a captura, os animais são transportados até a praia, onde passam por uma série de exames, incluindo pesagem, medições diversas e coleta de amostras de tecido, procedimento equivalente a uma biópsia que visa identificar a origem dos exemplares.

 

“Apesar de ter muitas tartarugas aqui em Arraial, é a área com maior densidade de tartarugas-verdes do Brasil, a gente não sabe onde elas nasceram. Então é isso que a gente está tentando entender agora”, completa.


 

Juliana explica que, ao determinar a origem desses animais, será possível compreender quais populações dependem das áreas de alimentação de Arraial. Conforme detalhado pela bióloga, o entendimento sobre a conexão entre áreas de desova e de alimentação é fundamental para a conservação.

 

A expectativa de vida das tartarugas-verdes é de aproximadamente 75 anos, e estima-se que permaneçam cerca de dez anos nas águas de Arraial do Cabo. Em alguns casos, esse período pode se estender até 25 anos, antes do retorno ao local de nascimento para fins reprodutivos.

 

Segundo Juliana, os animais chegam ainda jovens e se desenvolvem ao longo do litoral fluminense.

 

“São juvenis, recém-chegadas na costa. Depois que elas nascem, têm uma fase oceânica que dura, pelo menos, cinco anos. Então, com cerca de 25 centímetros, voltam para a costa. Em Arraial do Cabo, elas crescem e se desenvolvem muito bem, ou seja, engordam aqui com a oferta de alimentos”, descreve.


 

Identificação individual e análises genéticas

O projeto realiza o monitoramento da saúde das espécies tartaruga-verde e tartaruga-pente em três praias do município — Praia dos Anjos, Praia Grande e Praia do Pontal — além da Ilha de Cabo Frio. Todos esses locais estão inseridos na reserva marinha. Durante os procedimentos, são feitas medições minuciosas do casco, nadadeiras, cauda e unhas das tartarugas.

 

“É um monitoramento para entender como a saúde das tartarugas marinhas está”, diz Juliana.


 

A identificação dos indivíduos também conta com o auxílio de fotografias e programas de computador. Juliana esclarece que a fotografia utilizada é focada na cabeça da tartaruga, pois as placas presentes nesta região possuem formatos e tamanhos únicos para cada exemplar, funcionando como uma impressão digital diferenciada.

 

Desde o início das atividades em 2018, foram catalogados cerca de 500 indivíduos. Desses, 80 tiveram material genético coletado para análise de DNA, processo realizado em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF). O resultado dessas análises, que revelará a origem das tartarugas, é esperado em até seis meses.

 

Atenção ao limite de aproximação dos visitantes

Outro eixo de pesquisa do Projeto Costão Rochoso consiste em estabelecer qual a distância mínima de aproximação que as tartarugas toleram em relação a humanos.

 

“As tartarugas são muito carismáticas, todo mundo quer observar. Por conta disso, infelizmente, a gente tem muitos relatos de assédio, de captura, de pegar a tartaruga e tirar de dentro da água, isso é um estresse muito grande para esses animais”, constata a mergulhadora.


 

A metodologia adotada se baseia em simulações de aproximação humana, observando o comportamento dos animais até que demonstrem sinais de desconforto. Com esses dados, será elaborada uma cartilha de boas práticas para a observação de tartarugas marinhas, que poderá ser utilizada em atividades turísticas não apenas em Arraial do Cabo, mas em outras regiões do Brasil e no exterior.

 

Durante as ações de pesagem, medição e coleta de tecido, é frequente a presença de banhistas interessados, inclusive crianças, questionando se os animais estão doentes. Os integrantes do projeto esclarecem aos presentes o caráter preservacionista da atividade e, nas proximidades do local dos procedimentos, uma placa alerta: “Proibido tocar nos animais marinhos”.

 

Exigências e autorizações para a pesquisa científica

A bióloga e pesquisadora Isabella Ferreira explica que, para atuar na captura das tartarugas, é obrigatório possuir formação em áreas como veterinária, biologia ou oceanografia.

 

Além da formação específica, são indispensáveis autorizações emitidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e do Projeto Tamar, que foi criado em 1980 e é reconhecido internacionalmente como referência em experiências de conservação marinha.

 

Segundo Isabella, todos os procedimentos realizados — desde a captura, marcação e registro fotográfico — dependem de autorização prévia. Em cada atividade na área, a equipe notifica os guardas ambientais e apresenta os documentos de permissão às autoridades.

 

Informação complementar: repórter e fotógrafo participaram da cobertura a convite da Petrobras, parceira do Projeto Costão Rochoso.

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